quarta-feira, 2 de maio de 2012

Referencial teórico 9º ano

Queridos alunos,

Por favor, imprimam e estudem o referencial para a prova. Ele será trabalhado em sala.


REFERENCIAL TEÓRICO – 9º ANO

GÊNERO ÉPICO OU NARRATIVO

1 – Origens:

            Todos os povos têm suas narrativas e, apesar de haver uma variação na forma como elas são organizadas e transmitidas, o fato é que contar histórias parece uma atividade própria da natureza humana.
Durante muitos séculos, a produção literária realizava-se predominantemente em versos, sendo as histórias contadas por meio de poemas épicos ou epopeias.  As epopeias são textos em versos nos quais são narrados fatos heroicos de cunho nacionalista. As obras épicas consideradas mais importantes para a literatura ocidental são A Ilíada e Odisseia, cuja autoria é atribuída a Homero (séc. VIII) a.C. Um grande exemplo em língua portuguesa é Os Lusiadas, de Camões, obra que tem como ação central a descoberta do caminho das Índias por Vasco da Gama, permeada por vários episódios da história de Portugal, sempre glorificando o povo português.
A partir do final do séc. XVIII, com a criação do romance, a tarefa de contar histórias passou a ser desempenhada por essa nova espécie, como também pelo conto, pela novela, dentre outras. Devido a isso ocorre a dupla denominação do gênero: épico, fazendo referência à origem histórica; narrativo, referindo-se à evolução da criação literária.
As narrativas de ficção apresentam histórias contadas a partir da invenção imaginativa do autor, que lança mão de elementos como o enredo, o narrador, as personagens, o tempo e o espaço. Nessas narrativas, predominantemente organizadas em prosa, é o caráter do herói que o define, e não mais a glorificação pelas conquistas pátrias.

Nesta etapa estudaremos especificamente os elementos enredo e foco narrativo das narrativas de ficção. Além disso, identificaremos as possíveis definições e características da Crônica, espécie do gênero narrativo.


2 - Enredo:


O enredo ou trama de um texto é a história propriamente dita, aquilo que é apresentado ao leitor. Trata-se do arranjo sucessivo dos acontecimentos. Ele pode ser linear – em que a ordem dos acontecimentos é respeitada – , ou não linear – em que ocorrem idas e vindas em ralação ao tempo e ao espaço.
Quanto ao assunto básico, a narrativa de ficção pode apresentar os mais variados temas, como o amor, viagens, ficção científica, dentre outros.
Em relação ao ritmo, o enredo transcorrerá à medida que as situações forem se modificando, podendo sofrer interferências pela inclusão de descrições (de espaços, objetos e personagens) e digressões (reflexões, diálogos com o leitor, opiniões, considerações filosóficas, por exemplo).
É fundamental compreender que a essência da narrativa de ficção é a lógica interna do enredo. Os fatos de uma história não precisam ser verdadeiros, no sentido de corresponderem exatamente a fatos ocorridos no universo exterior ao texto, mas devem ser verossímeis; isto quer dizer que, mesmo sendo inventados, o leitor deve acreditar no que lê. Esta credibilidade é alcançada através da organização lógica dos fatos no enredo. Cada fato da história tem uma motivação (causa), nunca é gratuito e sua ocorrência desencadeia novos fatos (consequência).

            Para compreender a estrutura de uma narrativa, não basta identificar o seu início, meio e fim; é fundamental compreender o seu elemento estruturador: o conflito, em torno do qual todos os acontecimentos transcorrem. O conflito é qualquer componente da história (personagem, fatos, ambiente, ideias, emoções) que se opõe a outro, criando uma tensão que organiza os fatos da história e prende a atenção do leitor.
           



Nas narrativas tradicionais, é o conflito que determina as partes constituintes do enredo, que são:

·         situação inicial ou apresentação: parte que situa o leitor diante da história que irá ler;
·         complicação: parte em que se desenvolve o conflito (ou conflitos);
·         clímax: ponto máximo da tensão narrativa;
·         desfecho ou desenlace: solução dos conflitos.

Para melhor compreender os elementos constituintes do enredo, analisemos o texto seguinte:




Tragédia brasileira

Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade.
Conheceu Maria Elvira na Lapa — prostituída com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e os dentes em petição de miséria.
Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou médico, dentista, manicura... Dava tudo quanto ela queria.
Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado.
Misael não queria escândalo. Podia dar urna surra, um tiro, urna facada. Não fez nada disso: mudou de casa.
Viveram três anos assim.
Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.
Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bom Sucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato, Inválidos...
Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e inteligência , matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em decúbito dorsal, vestida de organdi azul.
                                                                                                                                                  Manuel Bandeira


IMPORTANTE: É fundamental ressaltar que nem todas as narrativas de ficção apresentam essa estrutura. Há textos cujo desfecho aparece no início da narrativa, como há outros em que o desfecho fica por conta do leitor. O romance moderno, por exemplo, caracteriza-se, muitas vezes por um desfecho “aberto”, que não propõe uma solução clara para a história. Vejamos, por exemplo, o final deste romance de Clarice Lispector:


            A madrugada se abria em luz vacilante. Para Lóri a atmosfera era de milagre. Ela havia atingido o impossível de si mesma. Então ela disse, porque sentia que Ulisses estava de novo preso à dor de existir:
            — Meu amor, você não acredita no Deus porque nos erramos ao humanizá-lo. Nos O humanizamos porque não O entendemos, então não deu certo. Tenho certeza de que ele não é humano. Mas embora não sendo humano, no entanto, Ele às vezes nos diviniza. Você pensa que —
            — Eu penso, interrompeu o homem e sua voz estava lenta e abafada porque ele estava sofrendo de vida e de amor, eu penso o seguinte:
                                                                         (Clarice Lispector – Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres)




3 – Ponto de vista ou foco narrativo:

As histórias são contadas a partir do ponto de vista de um narrador, ser fictício construído a partir das palavras e que, portando, não deve ser confundido com o autor, “pessoa de carne e osso”.

Há duas formas básicas de se narrar uma história: em primeira pessoa ou em terceira pessoa.

3.1 – Narração em primeira pessoa: o narrador pode ser o protagonista ou um personagem secundário da história. Vejamos o exemplo:

Não, não, a minha memória não é boa. Ao contrário, é comparável a alguém que tivesse vivido por hospedarias, sem guardar delas nem caras nem nomes, e somente raras circunstancias. A quem passe a vida na mesma casa de família, com os seus eternos móveis e costumes, pessoas e afeições, é que se lhe grava tudo pela continuidade e repetição. Como eu invejo os que não esqueceram a cor das primeiras calças que vestiram! Eu não atino com a das que enfiei ontem.
                                                                                                                      ASSIS, Machado de. Dom Casmurro


3.2 – Narração em terceira pessoa: o narrador pode ser onisciente ou observador.

A – Narrador onisciente: conhece tudo sobre os fatos e as personagens (seus sentimentos, pensamentos e segredos). Vejamos o exemplo:

A meia rua, acudiu à memória de Rubião a farmácia: voltou para trás, subindo contra o vento, que lhe dava de cara, mas ao fim de vinte passos, varreu-lhe a ideia da cabeça, adeus farmácia adeus, pouso!
                                                                                                                                         ASSIS, Machado de. Quincas Borba
                                                                                                                                                     
B – Narrador observador: domina os fatos, mas não “invade” o interior das personagens, contando apenas suas ações e comportamentos visíveis. Vejamos o exemplo:

O homem e a moça, na verdade, conversavam pouco durante aqueles almoços de verão. Depois do café o homem voltava para o pequeno estúdio nos fundos da casa, e às vezes a moça ia com ele. Ouviam música e conversavam, e então a moça voltava para a varanda do andar de cima em busca do sol do meio da tarde.
                                                                                           NEPOMUCENO, Eric. “As três estações”. In Coisas do mundo.


4 – Crônica
·         A crônica é inicialmente escrita para ser publicada em jornais e revistas, dirigindo-se a leitores geralmente apressados.
·         Quanto à temática, de modo geral, o cronista extrai do cotidiano o assunto para seus textos, em função do caráter circunstancial da crônica; transformando os pequenos acontecimentos do dia-a-dia em motivo para reflexão.
·         A linguagem da crônica e sua sintaxe são dinâmicas, em tom de reportagem, sem perder, porém, o seu caráter literário.
·         O narrador-repórter se identifica mais com o próprio autor que, via de regra, emite comentários pessoais sobre o assunto tratado. Portanto, há, na crônica, geralmente, a presença da dissertação.
·         Essas características da crônica conferem a essa espécie narrativa grande dinamicidade, alto poder de comunicação, dotando-lhe de grande capacidade de adaptação ao ritmo da vida contemporânea.

Observação: Leiam a parte denominada “Quero mais”, no final da obra Acontece na cidade, de vários autores. Lá vocês encontrarão importantes informações sobre as crônicas.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Referencia teórico - 8º ano (2ª etapa)

Galerinha, imprima este texto para a próxima aula.


O Gênero Épico

Origens e características:

    Todos os povos têm suas narrativas e, apesar de haver uma variação na forma como elas são organizadas e transmitidas, o fato é que contar histórias parece uma atividade própria da natureza humana.
   Durante muitos séculos, a produção literária realizava-se predominantemente em versos, sendo as histórias contadas por meio de poemas épicos ou epopeias.  As epopeias são textos em versos nos quais são narrados fatos heroicos de cunho nacionalista. As obras épicas consideradas mais importantes para a literatura ocidental são A Ilíada e Odisseia, cuja autoria é atribuída a Homero (séc. VIII) a.C. Um grande exemplo em língua portuguesa é Os Lusíadas, de Camões, obra que tem como ação central a descoberta do caminho das Índias por Vasco da Gama, permeada por vários episódios da história de Portugal, sempre glorificando o povo português.
   A partir do final do séc. XVIII, com a criação do romance, a tarefa de contar histórias passou a ser desempenhada por essa nova espécie, como também pelo conto, pela novela, dentre outras. Devido a isso ocorre a dupla denominação do gênero: épico, fazendo referência à origem histórica; narrativo, referindo-se à evolução da criação literária.
   As narrativas de ficção apresentam histórias contadas a partir da invenção imaginativa do autor, que lança mão de elementos como o enredo, o narrador, as personagens, o tempo e o espaço. Nessas narrativas, predominantemente organizadas em prosa, é o caráter do herói que o define, e não mais a glorificação pelas conquistas pátrias, como acontecia nas epopeias.
   Nesta etapa estudaremos a espécie narrativa conto, mais especificamente, o conto fantástico, levando em conta sua estrutura e características, informações que nos servirão de base para a análise dos contos da obra Histórias fantásticas, de vários autores.

O conto

   O conto é uma espécie do gênero narrativo, geralmente curta, cujo enredo gira em torno da solução de um conflito próximo de seu desfecho, as personagens são apresentadas brevemente e vivenciam situações decisivas. Não é a brevidade a marca principal de um conto, mas as características que o definem como uma experiência singular, marcante, única. Uma experiência que envolve de tal maneira o leitor, que ele pode perceber claramente a abertura do pequeno para o grande, do individual para o universal, sentindo a tensão, o perfeito equilíbrio entre as partes integrantes da narração: a apresentação, o conflito, o clímax e o desfecho.
   Apesar de ter se originado provavelmente por volta de 4000 a.C (contos mágicos ou contos egípcios - orais), foi no século XIV que o conto se afirmou como uma categoria estética, passando da oralidade ao registro escrito. O apogeu da espécie, contudo, ocorreu no século XIX, quando passou a ser reconhecido como “nobre”, literariamente, e começou a ser largamente produzido. Tem-se, então a origem do conto moderno, apresentando a estrutura que hoje o caracteriza: uma narrativa geralmente curta que condensa e potencia todas as possibilidades da ficção. Quanto aos temas, os contos são classificados em maravilhoso, fantástico, de terror, mistério, ficção científica, policial, moderno, contemporâneo, tradicional, dentre outros.
   Dentre os mais importantes contistas brasileiros estão: Machado de Assis, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca e Clarice Lispector.

   São características do conto:

• Unidade de ação: uma só situação importante centraliza a narrativa e envolve as personagens.
• Unidade de tempo: a história se passa em curto período de tempo.
• Unidade de espaço: o lugar por onde circulam as personagens é de âmbito restrito.
• Presença de poucas personagens.
• Quanto à linguagem, há o predomínio da narração. O discurso das personagens (discurso direto, indireto                 e indireto livre) muitas vezes assume relevância. A descrição e a dissertação tendem a anular-se.      

O conto fantástico

   O conto fantástico é aquele capaz de provocar o medo do desconhecido no leitor. Este, durante a leitura, se vê envolvido num universo imaginário, povoado por fantasias, terror, suspense e acontecimentos estranhos e sobrenaturais, sem, no entanto, perder a noção da realidade. Segundo Tzevetan Todorov, a literatura fantástica provoca, no espírito do leitor, uma dúvida insolúvel entre uma explicação natural e outra sobrenatural para os estranhos fatos narrados.
   Nesses contos não são seguidas as convenções pré-estabelecidas do “final feliz”, das “virtudes e recompensas” ou da “didática moral”, mas são apresentados e interpretados os acontecimentos e sensações, independentemente de serem bons, atrativos e estimulantes ou ruins, repulsivos e depressivos.
   Sobre a estrutura do conto fantástico, é fundamental que ele apresente uma exposição sobre o tema e a construção de atmosferas bem elaboradas com a função de envolver o leitor de um modo bastante singular e conduzi-lo ao clímax de forma gradativa.
   É importante ressaltar que no conto fantástico é bastante evidenciado a relação autor-obra-leitor, uma vez que não há uma interpretação incontestável do enredo, cabendo ao leitor, a partir de seu diálogo com a obra, buscar uma explicação para as histórias contadas, ou mesmo aceitar a ausência de uma explicação plausível.
   Na obra histórias fantásticas, de vários autores, teremos a oportunidade de vivenciar esses medos, entrar no universo do desconhecido e tentar explicar, através da realidade ou do sobrenatural, acontecimentos imprevisíveis e misteriosos.

O surreal

   De maneira geral, podemos definir surreal como aquilo que denota estranheza, transgressão da verdade sensível, da razão, ou que pertence ao domínio do sonho, da imaginação, do absurdo; em suma, como tudo aquilo que se encontra para além do real.

Literatura surrealista

   O grande nome da Literatura Surrealista é André Breton. Em 1924, ele publica em Paris o Manifesto do Surrealismo, em que define o espírito e os objetivos da nova vanguarda. Na literatura, a liberação do inconsciente deve ser alcançada com o auxílio da escrita automática. No manifesto, Breton “ensina” como usar o automatismo para fazer emergir o inconsciente:

Mande trazer com que escrever, quando já estiver colocado no lugar mais confortável possível para concentração do seu espírito sobre si mesmo. Ponha-se no estado mais passivo ou receptivo que puder. Pense que a literatura é um dos mais tristes caminhos que levam a tudo. Escreva depressa, sem assunto preconcebido, bastante depressa para não reprimir, e para fugir à tentação de se reler. A primeira frase vem por si, tanto é verdade que a cada segundo há uma frase estranha ao nosso pensamento consciente pedindo para ser exteriorizada.  

   O resultado deste processo é sempre um texto em que as relações lógicas não servem de apoio para o leitor, porque as imagens criadas não encontram equivalente no mundo conhecido. Privado das bases racionais de análise, não resta ao leitor outra saída a não ser entregar-se ao universo de sonho proposto pelo texto.
   O impulso de destruir os modelos clássicos de narrativa, de desafiar o gosto estabelecido e propor um olhar inovador para o mundo, isto é, um olhar que aponte a ruptura e a transformação: talvez seja este o grande legado dos surrealistas. Com suas propostas que fogem às convenções e tradições e que propõem desafios, eles libertaram a arte (a literatura) dos modelos que, durante séculos, dominaram o olhar dos artistas para a realidade.

Os autores da obra Histórias fantásticas se valem de tal conceito, mas, como sabemos, não estão necessariamente ligados ao Movimento Surrealista (alguns deles, inclusive, o precedem).  Mas tal movimento foi aqui tratado para apresentar e esclarecer o que vem a ser o surreal.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Referencial teórico para os meus queridos dos nonos anos

Lindinhos e lindinhas,

Aqui vai o referencial teórico que prometi. Leiam e anotem as dúvidas para que possamos discuti-las em sala.



INTRODUÇÃO AO TEXTO LITERÁRIO


1 - O que é literatura?

Muitos foram os conceitos de literatura apresentados pelos teóricos ao longo do tempo. Na Grécia Antiga, por exemplo, Aristóteles postulou que a literatura É a arte que imita pela palavra”, ou seja, para esse filósofo a literatura é uma imitação da realidade, tendo a palavra como matéria prima.

Um outro conceito importante é o formulado por Afrânio Coutinho, já no séc. XX “A Literatura, como toda arte, é uma transfiguração do real, é a realidade recriada através do espírito do artista e retransmitida através de uma língua para as formas que são os gêneros e com os quais ela toma corpo e nova realidade.”.

A esses conceitos devemos ainda adicionar a concepção de Moisés Massaud “Literatura é a expressão dos conteúdos da ficção ou da imaginação, por meio das palavras de sentido múltiplo e pessoal. Ou mais sucintamente: Literatura é ficção.”

Para melhor compreender as definições acima, devemos ter bem clara a diferença entre realidade e ficção.

Realidade é tudo aquilo que existe no mundo conhecido, que identificamos como concreto ou que reconhecemos como verdadeiro.

Já, a ficção relaciona-se à criação, à invenção, à fantasia, ao imaginário.

Analisando essas três definições, podemos observar que a Literatura é a arte da palavra e, como tal, recria a realidade, de forma ficcional, através dos múltiplos sentidos que as palavras podem apresentar. Os textos literários são organizados formalmente em gêneros (Épico, Lírico e Dramático), a partir de suas características e funções. Há textos que nos emocionam, outros que nos fazem refletir sobre a sociedade, há também aqueles que relatam grandes feitos heróicos, dentre outros exemplos.

É fundamental, porém, compreender que, apesar de na Antiguidade haver uma divisão rígida entre os gêneros, hoje é comum encontrarmos textos híbridos, ou seja, aqueles que apresentam características de mais de um gênero. Como exemplo, podemos citar a música Eduardo e Mônica, do grupo Legião Urbana, que através de versos narra a história de vida dos personagens título.

2 – Texto literário x texto não literário

Uma coisa é escrever como poeta, outra como historiador: o poeta pode contar ou cantar coisas não como foram, mas como deveriam ter sido, enquanto o historiador deve relatá-las não como deveriam ter sido, sem acrescentar ou subtrair da verdade o que quer que seja. (Miguel de Cervantes)

A afirmação de Cervantes a respeito do poeta pode ser estendida aos demais autores de textos literários: contistas, cronistas, romancistas, que têm a liberdade de utilizar a linguagem figurada (conotativa), dentre outros recursos. Já o jornalista, o pesquisador, o cientista devem escrever como o historiador, sempre representando a realidade, através da linguagem predominantemente denotativa. Apesar de manter relação com a realidade, o texto literário pode apresentar situações que fora da literatura seriam consideradas absurdas, como, por exemplo, a Morte contar uma história da qual é personagem, o que ocorre na obra A menina que roubava livros, de Markus Zusak.



3 – Conceitos fundamentais

As palavras não possuem um único sentido, ou seja, sua significação não é estática, mas relacionada ao contexto em que está inserida. As diferentes possibilidades de uso e compreensão das palavras é um dos mais importantes recursos presentes no texto literário.  Vejamos os exemplos:

TEXTO A)
O coração é um músculo que funciona como duas bombas unidas. Cada uma é dividida em dois compartimentos ligados por válvulas e as principais câmaras de bombeamento são os ventrículos.


TEXTO B)
Mundo Grande (fragmento)

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.
                                                            (Carlos Drummond de Andrade)



DENOTAÇÃO: Ao lermos o texto A, percebemos que o vocábulo coração está sendo usado no seu sentido “real”, de acordo com a definição que possui no dicionário. O contexto não permite que o interpretemos de outra maneira. Dizemos, então, que ocorre denotação.



CONOTAÇÃO: Já, no texto B, a linguagem é conotativa, figurada, uma vez que à palavra coração é dado um sentido afetivo, abstrato, relacionado aos sentimentos, e não mais a ideia de um músculo que bombeia o sangue.

Obs.: Vale ressaltar que a conotação não ocorre apenas no texto literário. Ela pode estar presente também em textos publicitários, discursos políticos, piadas e freqüente na linguagem cotidiana.

PLURISSIGNIFICAÇÃO: Ocorre quando no texto literário as palavras assumem diferentes significações. Vejamos no texto abaixo, como a palavra bicho pode ter diferentes significados.

TEXTO C

 

O Bicho


Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.



Observe o uso da linguagem nos textos abaixo:

TEXTO D

A queimada 

Num alvoroço de alegria, os homens viam amarelecer a folhagem que era a carne e fender-se os troncos firmes, eretos, que eram a ossatura do monstro. Mas o fogo avançava sobre eles, interrompendo-lhes o prazer. Surpresos, atônitos, repararam que a devastação tétrica lhes ameaçava a vida e era invencível pelo mato adentro, quase pelas terras alheias. (...) O aceiro foi sendo aberto até que o fogo se aproximou; a coluna, como um ser animado, avançava solene, sôfrega por saciar o apetite. Sobre a terra queimada na superfície, aquecida até o seio, continuava a queda dos galhos. O fogo não tardou a penetrar num pequeno taquaral. Ouviam-se sucessivas e medonhas descargas de um tiroteio, quando a taboca estalava nas chamas. O fumo crescia e subia no ar rubro, incendiado, os estampidos redobravam, as labaredas esguichavam, enquanto a fogueira circundava num abraço a moita de bambus. 

(Fragmento. Graça Aranha. Canaã, Rio de Janeiro,F.Briguiet, pp.111-113)



TEXTO E


Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.

 É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

                                               Camões



TEXTO F
Bombeiros controlam incêndio em fábrica na Grande São Paulo

Fogo começou na parte térrea do sobrado e foi controlado após quase três horas do trabalho dos bombeiros


SÃO PAULO - Uma fábrica de cosméticos foi atingida por um incêndio na tarde desta quinta-feira, 9, no Jardim São Lázaro, em Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo.
O Corpo de Bombeiros foi acionado por volta das 14h40 e, às 17h45, as equipes trabalhavam no rescaldo do incêndio. Dez viaturas foram para o local, na Rua dos Ipês. O fogo começou na parte térrea do sobrado e foi controlado antes de se espalhar para outro andar ou imóveis vizinhos. Não houve feridos.
Fonte: estadão.com.br, 09/02/2012

Os textos D e E apresentam plurissignificação, com base na linguagem conotativa. Em D, o fogo apresenta características de um monstro e de um ser humano, em E o fogo faz referência à sensação provocada pelo amor. Já, no texto F, o mesmo vocábulo está no sentido denotativo, já que o objetivo da notícia é informar.

QUADRO COMPARATIVO ENTRE TEXTO LITERÁRIO E NÃO LITERÁRIO
TEXTO NÃO LITERÁRIO
TEXTO LITERÁRIO
Tem como principal função informar.
Predominantemente emotivo,  expressa sentimentos.
Busca expressar a realidade, ou o que o autor defende como tal.
Abre espaço para a ficção, recria a realidade.
É objetivo, as palavras são usadas no sentido real, do dicionário (denotação)
É subjetivo, utiliza vários recursos expressivos, como palavras no sentido figurado (conotação), ou com várias possibilidades de sentido (plurissignificação)
Tem intenção imediata, utilitária.
Tem intenção estética.
Usa uma linguagem impessoal.
Usa linguagem mais pessoal.

4 – Funções do texto literário:

·         Função estética: arte através da palavra e representação do belo.
·         Função lúdica: provoca satisfação, entretenimento.
·         Função cognitiva: leva ao conhecimento de uma realidade objetiva ou psicológica.
·         Função catártica: purificação dos sentimentos.
·         Função crítica: denúncia de questões sociais.
·         Função reflexiva: provoca a interrogação, a indagação.



5 – Relação autor – obra – leitor:

Sabemos que o autor transfigura, recria a realidade por meio da linguagem literária e a partir de sua maneira pessoal de analisar o mundo. Porém seu trabalho incorpora traços de seu momento histórico, uma vez que está inserido em um meio social e cultural. Através de seus textos o autor pode manifestar sua opinião acerca do mundo em que vive, criticar a sociedade e a política, tratar de temas do cotidiano, falar de sentimentos e muitos outros temas. Mas a obra completa seu sentido (ou seus sentidos) quando lida, pois nesse momento cruzam-se as experiências que geraram e suscitaram a criação da obra literária (as do artista) com as experiências, crenças e valores de vida e de leitura do receptor (leitor). Portanto é nessa interação que ocorre a leitura, isto é, não é na obra em si, nem na apreensão, propriamente dita, do receptor que realiza a leitura, mas no laço que se cria entre o dito e o lido. O reconhecimento da importância do leitor, no entanto, não significa que ele possa ressignificar o texto literário ao seu bel prazer, sua relação com a obra deve ser pautada nas pistas e nos jogos de palavras nela apresentados.